Coringa de Brian Azzarello

 Coringa convenceu os médicos de que tinha melhorado e já estava apto a voltar para a sociedade. Pelo menos foi essa a explicação que deu para Jonny Frost, um bandidinho pau-mandado que veio buscá-lo nas portas do Arkham Asylum. Porém, quando se trata do Coringa, todos sabemos que a realidade pode estar além das aparências e dos discursos. O que fala pode ser mentira, verdade ou apenas a sua mente criando coisas. Fato é que Jonny Frost vai aprender como chegar ao topo da hierarquia do crime acompanhando o maior vilão de Gotham.

É pelo ponto de vista desse simples capanga que Brian Azzarello decidiu investigar a psiquê do arqui-inimigo do Batman. Falar de dentro da cabeça do palhaço seria perigoso demais, pois grande parte da força do personagem está justamente na sua imprevisibilidade, como já disse o próprio roteirista em entrevista (https://www.newsarama.com/924-exploring-the-joker-brian-azzarello-talks.html).

Logo no primeiro assassinato, Coringa vira ídolo do seu ambicioso capanga e narrador da história. Jonny ficará por perto, tomará conhecimento dos próximos passos com antecedência e pela primeira vez na vida saberá aonde os corpos serão levados e enterrados. Toda a desumanidade se justificará pela missão de retomar o poder do crime de Gotham para o seu superior.

Então, esse objetivo maior é arrastado a passos menores por aquela mente tão insana quanto brilhante. Começa com um assalto a banco, se desenvolve através de assassinatos e termina numa guerra política contra outro supervilão. Durante esses acontecimentos, torna-se nítida e peculiar a fixação de Coringa com Batman. Hora o vê como um anjo protetor, que nunca deixaria que algo ruim lhe acontecesse, hora como um justiceiro implacável vindo da escuridão e prestes a machucá-lo a qualquer momento.

Até como leitor, existe a ansiedade de ver o Cavaleiro das Trevas a cada página virada. Será que o herói vai deixar mais essa atrocidade ocorrer sem interferir? Eu me vi pensando, apreensivo.

Esses sentimentos sobre o herói, porém, não acometem a Jonny Frost. Durante toda a HQ, sua preocupação é o mundo do crime. A admiração inicial por seu superior abre espaço também para a perplexidade a cada oponente violentamente derrubado e ao medo que sente quando é pressionado a se reportar sobre questões pontuais. Estaria ele louco por querer se tornar como o Coringa? “Louco” no sentido literal ou “louco” de estar desesperadamente querendo?

Além de toda a história muito bem desenvolvida e o respeito dado ao vilão já conhecido por todos, “Coringa” apresenta desenhos lindos de Lee Bermejo. Os personagens são realistas, os rostos são fortemente marcados por rugas e cicatrizes além dos olhos cerrados que evidenciam a melancolia, o sofrimento e a apatia dos vilões. Os ambientes são cinzas e sujos e não dá pra ver o céu ou o sol em Gotham, como é de se esperar da cidade.

O final é recompensador e vai te deixar na ponta da cadeira. Desde a primeira página, a história me envolveu tanto que foi simplesmente impossível parar uma vez iniciada a leitura das mais de 120 páginas.

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