Castlevania continua melhorando, mas Alucard tem o pior arco

 

Castlevania é uma série original da Netflix e chegou a sua terceira temporada. Enquanto as duas primeiras temporadas focou em apresentar os principais personagens, Trevor Belmont, Sypha Belnades e Alucard em sua luta contra Drácula, agora temos que acompanhá-los num mundo sem o grande vilão da série, mas ainda não menos violento e cruel.

A série adaptou muito bem a história da franquia dos games que já completa 34 anos, com forte ênfase nos jogos Dracula’s Curse, que acompanha Trevor, e Symphony of The Night, do Alucard. Agora, a história expande ainda mais o universo com a apresentação do sábio Saint Germain, conhecido por ser um viajante do tempo.

Sypha e Trevor o encontram na pequena cidade de Lindenfield depois de seguirem viagem deixando Alucard sozinho cuidando do Castelo de seu pai. Esse é uma característica importante da temporada, ela se divide em quatro núcleos principais. Tem o casal que tenta desvendar os segredos da cidade assombrada e com a ajuda de Saint Germain vão tentar impedir que o Drácula volte a vida. Acompanhamos também o meio-vampiro que, entediado, aceita dois discípulos vindos do Japão e que querem aprender a lutar contra os vampiros que oprimem seu povo.

E os dois arcos mais interessantes, porém, são dos forgemasters (necromantes). Isaac, que foi salvo por Drácula antes da batalha final na 2ª temporada, agora quer se vingar da humanidade e de seu antigo colega, Hector, por ser um traidor. Por fim, o arco do Hector, outro forgemaster que agora é prisioneiro no castelo de Carmilla.

É lá que o Conselho das Irmãs, formado pelas vampiras Carmilla, Lenore, Striga e Morana, tentará convencer Hector a usar suas habilidades para criar um exército de monstros para ajudá-las a expandir o seu império.

O forgemaster, por sua vez, se esforçará para resistir até o último momento porque foi muito maltratado no dia de sua prisão. Espancado e humilhado, nesta temporada terá que enfrentar os desafios psicológicos da menos violenta dentro do Conselho. Lenore, ao contrário de suas irmãs de sangue, gosta de usar a diplomacia para resolver seus problemas. Então, oferecendo comida fresca e passeios, mesmo exigindo que o prisioneiro use uma coleira, como um cachorro, vai ganhando aos poucos a confiança de Hector.

O trato com os seres humanos como se fossem animais é tema recorrente na série. Os vampiros são seres ardilosos, violentos, altivos e uma das maiores vantagens sobre os homens é terem acumulado conhecimento durante séculos. Tempo demais para se deixarem levar por mentiras ou segundas intenções.

Já a humanidade não possui o orgulho dos aristocratas em seus castelos, porém, não são menos violentos. Durante os capítulos, somos apresentados a pessoas que fazem coisas terríveis. Um grupo de cultistas idolatra Drácula e segue os comandos de um demônio, pessoas comuns são transformadas em monstros, existe um assassino de crianças à solta e por aí vai.

Tanto os vampiros quanto os humanos são seres nem um pouco confiáveis. E até o fim da temporada isso vai ficar bem claro. Isaac, por exemplo, toda vez que vê sua fé renovada por algum ato de bondade, um homem aparece para lembrá-lo do porquê de sua cruzada contra a humanidade e os traidores do seu soberano.

Seu núcleo é um dos mais divertidos de se acompanhar. Entre a destruição de uma cidade e outra, existe um tempo de respiro para reflexão. Existe uma série de diálogos memoráveis em que o forgemaster explica suas habilidades e suas motivações.

“O inferno é habitado por humanos que foram contra a vontade de Deus. Porém, o Profeta Maomé, que a paz esteja com ele… Disse que um dia o inferno será esvaziado e suas portas baterão ao vento. Pela minha mão, Deus eleva os condenados do inferno em sua misericórdia para cumprirem sua penitência na Terra como MEUS soldados.”

Infelizmente, em contrapartida, o arco do Alucard é um dos mais pobres. Falta muito carisma para os seus discípulos que simplesmente surgem do nada e pouco agregam à série. O filho de Drácula não consegue ter um desenvolvimento interessante nesta 3ª temporada. Como já conhecemos o seu caráter, os roteiristas pecam em não desenvolver uma história que o modifique de verdade. Vemos apenas mais do mesmo personagem solitário e melancólico.

Do mesmo sofre Trevor e Sypha. Nós já sabemos como eles lutam e que estão preparados para enfrentar os mais difíceis oponentes. Já sabemos também como são sarcásticos quando conversam entre si, cada um a seu estilo. E não existe um motivo convincente para eles se meterem em problemas dessa vez. O fazem por puro tédio e deixam isso bem claro. O que salva neste arco é a história da cidade, as batalhas épicas e antagonistas interessantes.

Os problemas da temporada não ofuscam os pontos fortes. Todo o rico universo desenvolvido é muito interessante e a 3ª temporada serve como trampolim para o que vem em seguida. Viagem para o inferno, uma grande guerra pelo poder sobre a humanidade e a volta do Drácula são possibilidades que devem ser exploradas. Sim, as expectativas são altas para a quarta temporada.

Outro ponto forte é que as artes ficaram melhores. O sucesso deve ter alavancado mais poder de investimento e é nítida a diferença no desenho dos cenários e nas animações. Cenas de ação em 3D agora acontecem com relativa frequência.

Para quem quer começar a assistir a série agora, saiba que o conhecimento prévio dos games não vai fazer muita diferença, uma vez que há desenvolvimento sofisticado do mundo e dos personagens. Com certeza esse é um dos fatores que fez o público acompanhar a série até agora. O sucesso fez a quantidade de episódios aumentar também. São 10 nesta 3ª temporada, enquanto a primeira tem 4 e a segunda tem 8.

Apesar de todo o arco do Alucard ter ficado um tanto desnecessário, Castlevania da Netflix continua sendo uma das melhores adaptações de games para outra mídia. Todo o desenvolvimento dos personagens e os diálogos bem escritos dão cada vez mais profundidade àquele universo, tornando possível uma série que acerta tanto na ação como no desenrolar político de sua história.

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